Liturgia em Foco
  

Por ocasião da última assembléia dos bispos em Itaici, tive a grata oportunidade de encontrar mais uma vez com o Pe. Dalton Barros de Almeida, C. Ss. R.. Pedi-lhe licença para publicar  – o que devo fazer em partes – um belo artigo escrito no Boletim Informativo “AKIKOLÁ”, ano 25, outubro 2007, nº8, páginas 7-9. Trata-se de um texto de espiritualidade.

            Quando tantos mascates do divino andam a oferecer um “deus” diminuto e, portanto facilmente manipulável, é bom refletir sobre o sentido, a espiritualidade que deve perpassar a autêntica Liturgia, um culto ao Deus Verdadeiro que vem ao nosso encontro – Ele é Emanuel, Deus conosco – convidando-nos a ser o que realmente somos, diante Dele, dos nossos irmãos e do mundo.

            Nossos sinceros agradecimentos ao Pe. Dalton.

 

Parte II

 

 

Um casório espúrio

            A Liturgia não pode ser vivenciada como se a tônica dela fosse produzir espumas emocionais. Sabemos todos que a imaginação pode se submeter aos desvios do coração sentimental demais. Aliás, os pietismos das várias épocas na História da Igreja sempre pretenderam manejar a imaginação por meio de sentimentos. E o resultado sempre foi um subjetivismo religioso ingênuo, acrítico. Ingênuo porque se fica enjaulado na armadilha interior de apostar que a imaginação representa e significa a realidade. Não assim, não. Quem solta as rédeas da própria fantasia religiosa dissolve corrosivamente a objetividade dos símbolos e torna-se caldo de cultura onde pululam um psicologismo consolador casado com o individualismo da satisfação imediata. Esse casório não homenageia a transcendência do Mistério Deus nem a nossa dignidade humana.

            A melhor tradição espiritual nos faz proposta da humildade a fim de que a proximíssima presença de Deus não perca a verdade do Deus que é. Eu sou é. Seu nome: YHWH. O Transcendente. O totalmente Outro. O Separado, mesmo na mais intima proximidade; Abba. Se deveras ocorre um mergulho Nele, seremos mergulhados no fogo e todas as asas se queimarão e toda palha será reduzida a cinzas.

A humildade que liberta e cura

            As posturas da fé litúrgica que traduzem a humildade nos libertam dos miasmas do intimismo e do objetivismo ingênuo. Os gestos e símbolos de humildade nos imunizam das maneiras supersticiosas que coisificam Deus nos amuletos. Chega de manipular o poder divino em formas supostamente milagreiras. Não é assim, não. Do Sagrado, do Divino, da Trindade há sempre uma distância a se percorrer para ocorrer um encontro, seja como ternura, seja com embate. O encontro com Deus movimenta alguma coisa em nós. Traz à tona nosso verdadeiro ser. Desperta o que esperava a hora boa de emergir, ser erradicado, replantar, germinar, crescer. É da ação litúrgica levar-nos a ver a realidade com os olhos de Deus e com Ele nela atuar. O que suscita a Esperança. Nem o esteticismo celebrativo pode passar por cima deste difícil “ir ao encontro do Senhor”. Desde os primórdios da revelação (escrituras hebraicas) há uma força de Deus que nos potencia e permanece com requisito para a aproximação e o encontro: a humildade.

            Humildade? Nada a ver com humilhação ou fingida baixa auto-estima e queijandos de rebaixamento. Para alguns, talvez, ainda seja humilhante os des-ilusionar-se. A vida é assim: periodicamente abandonamos ilusões, superamos ingenuidades, reconhecemos auto-enganos. Caem as escamas dos olhos, caem as trapaças e nos damos conta de algumas verdades nada gloriosas sobre nós mesmos.

 

 



Escrito por Dom Paulo Francisco Machado às 09h00
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