Liturgia em Foco


AMÉM

 

Dom Paulo Francisco Machado

 

 

Amém é uma palavra de origem hebraica que passou para o uso dos cristãos em suas preces. Sua tradução mais comum na língua portuguesa é: assim seja.

            Entre os inúmeros “Améns” encontrados na Liturgia, há um muito especial na Celebração Eucarística: a solene aclamação que encerra a Oração Eucarística. É sobre esse que queremos fazer algumas considerações. No passado recente não era incomum a assembléia rezar junto, e muitas vezes a convite do celebrante toda doxologia[1], resultando numa aclamação acanhada, sem entusiasmo algum. Hoje, graças a Deus, ao conhecimento mais profundo do Concílio Vaticano II e ao crescente interesse dos padres e fiéis pela Sagrada Liturgia, quase sempre a assembléia tem cantado só o Amém. Uns poucos insistem em cantar ou rezar toda a doxologia.

Teçamos algumas considerações.

            A Oração Eucarística é uma narrativa orante e orante narrativa que faz memória, repleta de agradecimento, das intervenções do Pai na nossa História, por Cristo no Espírito Santo. A história da Aliança é apresentada e se perpetua com o “Amém” de toda assembléia que sobe ao Pai por meio de Cristo (2 Cor 1,20). Na oração eucarística o celebrante recorda com profundo agradecimento ao Pai que em Jesus Cristo se atualiza por meio do Espírito Santo: a salvação. Temos o coração agradecido ao recordarmos as maravilhas que Deus fez por nós. A conseqüência é que da gratidão vamos ao louvor, à adoração, à ousadia de pedir atualização de benefícios.

            Vejamos como alguns Santos  Padres da Igreja se referiam a esse “Amém”.

            Em seguida, levantamo-nos todos juntos e elevamos nossas preces. Depois de terminadas, como já dissemos, oferece-se pão, vinho e água, e o presidente, conforme suas forças, faz igualmente subir a Deus suas preces e ações de graças e todo povo exclama, dizendo:”Amém”. (S. Justino; Apologia I, 67, tradução Paulus).

            S. Jerônimo recordava-se, lá em Belém, que o Amém nas basílicas romanas, brilhava como relâmpago (Cf. PL 26, 355).

            Santo Agostinho poderia ser chamado o teólogo do Amém, a palavra, segundo ele, mais importante da Missa. No seu Sermão 211 afirma que no céu daremos continuidade às grandes aclamações litúrgicas: “cantaremos Amém e Aleluia”. Para ele o Amém que encerra a Prece Eucarística é como uma assinatura que se apõe, por exemplo, a um testamento: “vosso Amém é vossa assinatura” (Sermão, 48; 272, etc). Em sua diocese de Hipona,  tal era a convicção dos fiéis que as colunas do templo tremiam ao rezá-lo.

            A Instrução Geral do Missal Romano, no número 147, afirma:

            “O Sacerdote inicia a Oração eucarística. Conforme rubrica, ele escolhe uma das Orações Eucarísticas do Missal Romano, ou aprovadas pela Santa Sé. A oração eucarística, por sua natureza, exige que somente o sacerdote, em virtude de sua ordenação, a profira. O povo, por sua vez, se associe ao Sacerdote na fé e em silêncio e por intervenções previstas no decurso da Oração Eucarística, que são as respostas no diálogo do Prefácio, o Santo, a aclamação após a consagração, e a aclamação “Amém”, após a doxologia final, bem como outras aclamações aprovadas pela Conferência dos bispos e reconhecidas pela Santa Sé”.

            E, ainda, número 151: “No fim da oração eucarística, o sacerdote, tomando a patena com a hóstia e o cálice, ou elevando ambos juntos, profere sozinho a doxologia: Por Cristo. Ao término, o povo aclama “Amém”. E no número 236:“A doxologia por meio da oração eucarística é proferida somente pelo sacerdote celebrante principal e, se preferir, junto com os demais concelebrantes, não porém, pelos fiéis”.

            A Comissão Litúrgica da CNBB, no Guia Litúrgico Pastoral, insiste:

            Não se enfraqueça a força do “Amém” final da oração eucarística pela recitação da doxologia, pois este “Amém” é a ratificação pela assembléia de toda ação de graças e súplica que o sacerdote dirige a Deus, em nome de todos, na oração eucarística(pág.22).

            O meu caro leitor já deve ter percebido que o solene “Amém” com que encerramos a Prece Eucarística não é um simples assentimento a uma narrativa, mas compromisso pessoal de ser Amém, plena associação e participação, na renovação da Nova e Eterna Aliança. Um belíssimo texto de Jean-Marie Roger Tillard faz a seguinte referência:

“Mas nesse Amém tem sua fonte todos os Améns espalhados pela vida cristã; e nele todos são reunidos pelo ministro e oferecidos ao Pai na Ação de Graças, levando consigo todos os solos humanos que eles semearam. O Amém que encerra a anáfora é assim o do Corpo de Cristo recebendo-se como corpo no louvor, na gratidão, na adoração e na confissão de Deus”. (EUCARISTIA – Enciclopédia da Eucaristia, Paulus, S. Paulo pág.553).

 

Amém é adesão à narrativa feita pelo celebrante, é apoio ao que foi rezado. Que ele seja prece com o coração, com a boca e com a vida. (Cf.Santo Agostinho; Comentário aos Salmos  149). Comecemos o nosso treino coral, aqui na terra, para nos associarmos ao coro celeste, cantando “Amém”.

 



[1] Doxologia (do grego ‘doxa’, isto é glória) é uma aclamação de louvor (hino de glorificação), muito comum na Sagrada Escritura e na Liturgia.



Escrito por Dom Paulo Francisco Machado às 09h20
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 Apresento a todos um outro artigo do Pe Guanair da Silva Santos sobre  Espaço Litúrgico tema do dos dias de estudo promovido pela Comissão de Liturgia do Leste II. Ao caro amigo, nossos agradecimentos.

 

 

“O Espaço litúrgico é a tela na qual a igreja viva pinta o seu auto-retrato, retrato que  deveria ser ícone do Cristo Ressuscitado e vivo para o nosso mundo”.

 

Estivemos reunidos e unidos na Casa de Retiros São José nos dia 22 a 25 de setembro, onde refletimos sobre a Mistagogia do Espaço celebrativo. A Irmã Laide Sonda, nos orientou e nos fez percorrer a historia da liturgia da Igreja, onde contemplamos a beleza da arte sacra expressa em diversas edificações de templos sagrados, dedicados a celebração da liturgia.

 Para cada época da história, a construção revela o pensamento e a mentalidade da época. Na verdade uma riqueza de artes sacras, onde o protagonista é a ação do Espírito Santo, que inspirou aos artistas as mais belas pinturas, esculturas e espaço litúrgico, para que, pudéssemos fazer uma experiência de Deus.

O leitor haverá de se perguntar: o que significa a palavra mistagogia? O significado está relacionado a iniciar nos mistérios (myéô, mystagogéô).  Portanto, ao referirmos mistagogia do espaço celebrativo significa que ele é o lugar por excelência de conduzir os já iniciados (mystai) a viver plenamente os dons recebidos, o mistério de salvação. Sua meta é a comunhão com o Pai, em Jesus Cristo, na presença do Espírito Santo. Por isto é importante cuidar bem do espaço celebrativo. Em nossas igrejas, devemos ter o cuidado de deixar o espaço comunicar aos fiéis a presença amorosa, salvífica e redentora de Cristo. O espaço fala por si, é espaço sagrado, assim sendo é importante evitar o exagero na colocação de flores, plantas, jarrinhos e paninhos principalmente na mesa do altar. Na instrução geral ao missal romano encontramos a seguinte orientação: a ornamentação da igreja deve visar mais à nobre simplicidade do que à pompa. Na escolha dessa ornamentação, cuide-se da autenticidade dos materiais e procure-se assegurar a educação dos fiéis e a dignidade de todo o local sagrado (IGMR 292).

Vivemos hoje, a tentação de reformar as igrejas, capelas e lugares de culto. Destruí este templo e em três dias eu o reerguerei (Jo 2,19). O templo de Deus é o Corpo de Cristo, mas o corpo, na sua totalidade, constituído pela Igreja, Corpo Místico. Por isso, S. Paulo nos diz: nós somos o templo do Deus vivo (2Cor 6,16). Claramente a idéia de espaço litúrgico de muitas comunidades, “apesar das mais variadas concepções de espaço existentes na Modernidade, é amplamente determinada pelo espaço do século XIX, o espaço unitariamente direcionado”. 

O que acontece em algumas Comunidades é que às vezes a equipe encarregada da reforma não  leva em conta o serviço de profissionais na área de construção (engenheiros, arquitetos, paisagistas, artistas plásticos). A presença deles é importante para que, se busque uma “verdadeira qualidade artística, que alimentem a fé e a piedade e correspondam ao seu verdadeiro significado e ao fim a que se destinam. Na Sacramentum Caritatis, 35, o papa diz: Tenha-se presente que a finalidade da arquitetura sacra é oferecer à Igreja que celebra os mistérios da fé, especialmente a Eucaristia, o espaço mais idôneo para uma condigna realização da sua ação litúrgica; de fato, a natureza do templo cristão define-se precisamente pela ação litúrgica, a qual implica a reunião dos fiéis ( ecclesia), que são as pedras vivas do templo.

Lá no seminário encontrei engenheiros, arquitetos e paisagistas , homens e mulheres de fé que no exercício de sua missão batismal se colocam a serviço da Igreja. Com seus conhecimentos e técnicas desejam ajudar a pensar as edificações e reformas dentro do espírito da renovação da teologia do espaço celebrativo que encontramos no capitulo VII da sagrada constituição sacrosanctum concilium.

Portanto, na edificação ou reforma dos edifícios sagrados, que tem por finalidade conduzir os já iniciados no mistério da páscoa de Cristo, a presença dos profissionais e artistas podem nos ajudar: a transformar o espaço que temos em um espaço funcional que ajude a comunidade cristã a participar ativa e profundamente da ação litúrgica; a conservar as obras e tesouros artísticos e a adaptá-las a cultura da comunidade, e ao pintar o seu auto-retrato, este seja ícone do Cristo Ressuscitado e vivo para o nosso mundo. Daí que o espaço celebrativo bem ordenado e com harmonia interior, é o espaço que  proporciona aos fiéis uma beleza serena que o conduza progressivamente ao coração do Pai Eterno.



Escrito por Dom Paulo Francisco Machado às 11h20
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            Do Pe. Guanair da Silva Santos, nosso amigo do clero da Arquidiocese de Juiz de Fora recebi esse interessante artigo. Ele é mestre em Teologia, com especialização em Liturgia  pela Pontifícia Faculdade Assunção, também é um dos membros da equipe do Leste II (MG e ES) que vem refletindo sobre a Pastoral Litúrgica. A ele, nosso sincero agradecimento.

 

 

A LITURGIA, LUGAR PRIVILEGIADO DA LEITURA BÍBLICA.

Pe. Guanair da Silva Santos

 

                        Com a renovação litúrgica implementada pelo Concílio Vaticano II, a leitura da Sagrada Escritura obteve um lugar de destaque privilegiado na liturgia. Esta renovação litúrgica ganha impulso ao lado do movimento bíblico que estimulou a igreja, comunidade cristã a voltar ao texto sagrado , com tudo o que nele se acha contido da mensagem, de alimento, de vitalidade para a própria igreja.

            Na Sacrosanctum Concilium que é o documento sobre a sagrada liturgia, encontramos artigos que demonstram a relevância da Sagrada Escritura nas ações litúrgicas. Vejamos:

Cristo presente está pela Palavra, pois é ele mesmo que fala quando de lêem as Sagradas Escrituras na igreja (SC 7). Aqui, temos algo importantíssimo para que as equipes que preparam a celebração e de liturgias estejam atentas. A novidade é o acento da centralidade do Evangelho como ponto culminante de toda a celebração da Palavra (cf.OLM 13). Veja que é por esta razão que devemos caprichar pois, a Igreja sempre venerou as divinas Escrituras, como também o próprio corpo do Senhor; sobretudo na sagrada liturgia, nunca deixou de tomar e distribuir aos fiéis, da mesa tanto da palavra de Deus como do corpo de Cristo, o pão da vida(DV21) e assim,  levar em conta o modo de executar o canto de aclamação, o volume de som dos instrumentos, o modo de conduzir o Livro (Biblia, Evangeliário ou Lecionário) até o altar, a atitude de escuta, a atitude corporal da assembléia e de quem faz o anuncio do Evangelho, os gestos, o silêncio, a boa leitura para que toda ação ritual, suscite a fé e transmita a própria vida divina aos fiés.

É muito grande a importância da Sagrada Escritura na celebração litúrgica. Dela se extraem os textos para a leitura e explicação na homilia e os salmos para cantar; do seu espírito e da sua inspiração nasceram orações, preces e hinos litúrgicos; dela tiram o seu significado os sinais e ações(SC 24). Assim, as leituras, orações, preces, hinos, salmos que ouvimos nas ações litúrgicas são inspiradas por Deus, é Palavra viva e eficaz (cf. Hb 4,12), portanto, sendo esta a autêntica palavra salvadora que viemos escutar na celebração litúrgica, elas não podem ser substituídas por outras (OLM 12). A palavra que ecoa na assembléia é palavra atual, que Deus fala hoje. É apelo, é divina provocação. Ninguém pode colocar-se diante do evangelho em atitude de espectador. A palavra desempenha sua função profética oferecendo: juízo de condenação do mal, que pode transformar-se em corajosa denuncia de injustiças patentes (penso em Dom Helder Câmara); estimulo à conversão, à indicação de compromissos concretos e urgentes com a igreja e com o mundo. É o que diz Barth: “Tenho em uma das mãos o evangelho e na outra o jornal, e leio os acontecimentos à luz do evangelho” (M. Magrassi. In Dicionário de liturgia p. 974)

Creio que esta orientação pode ajudar a todos nós a dar o valor necessário a Palavra de Deus nas ações litúrgicas, pois esta é Palavra de salvação. Os textos comuns, ainda que belos e que digam muito para o momento em que estamos vivendo podem vir na homilia ou mesmo antes da conclusão dos ritos finais.

 

 

Siglas

SC – Sacrosanctum Concilium

OLM – Ordo Lectionum Missae (Elenco das leituras da Missa)

 

 

Pe. Guanair da Silva Santos

Paróquia Nossa Senhora da Conceição – Rio Novo (MG)

guanair@terra.com.br

 



Escrito por Dom Paulo Francisco Machado às 09h54
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Dom Paulo Francisco Machado

 

Há várias semanas iniciamos a publicação do BLOG LITURGIA EM FOCO. Tenho recebido inúmeras dúvidas de muitos leitores. Uma das mais comuns refere-se  ao que rezar durante a apresentação da hóstia consagrada e do cálice após a narrativa da instituição eucarística.

Quero, em primeiro lugar, esclarecer que não sou dono da Liturgia, essa é um dom preciosismo do Espírito Santo à Igreja de Cristo.

Na oração eucarística toda intervenção espontânea, devocional é inoportuna e proibida. A Igreja é muito ciosa dela. Há algumas intervenções da assembléia que são previstas, em especial, uma das mais importantes é aquela logo após a narrativa da instituição. Nesse caso temos três intervenções com as fórmulas previstas.

Não convêm introduzir na Santa Missa, mormente na oração eucarística, elementos devocionais, mesmo os relacionados à eucaristia. Importa estarmos ouvindo  atentamente, com o coração, o memorial, a recordação de todos os benefícios divinos a toda humanidade e a seu Povo Santo. É a história da Salvação, é o Testamento da Aliança que é narrado, e há de ser ouvido com todo cuidado, para que não se perca uma única palavra.

Este não é o momento de se rezar jaculatórias com a assembléia, introduzir devoções pessoais, é Cristo e sua esposa, a Igreja, seu Corpo, que se dirige ao Pai de infinita bondade. No instante da apresentação do Corpo do Senhor e do Cálice com o seu Preciosismo Sangue o que fazer?

Será importante participar, olhando, tudo o que se passa no altar. É o Mistério Pascal que estamos celebrando na força da fé, pela atuação do Espírito Santo sobre as oblatas, somos chamados a fazer a experiência fundante de nossa Vida Cristã: 1- Somos levados, misteriosamente, aos pés da Cruz de nosso Redentor para contemplar o Traspassado, que “elevado da terra”, nos atraiu a Si e, com o coração agradecido, reconhecemos o Infinito Amor do Pai que nos deu seu Filho Único; 2- Somos transportados até o sepulcro vazio e encontrando o Ressuscitado, temos a certeza de que  o amor venceu a morte; 3- Celebramos o Mistério Pascal para, imbuídos de sua força, reproduzir em nossa vida, a vida do Senhor, viver na fraternidade, aprender que Missa é Missão e, Eucaristia, Fração do Pão, Comunhão.

Penso ser oportuno apresentar um pequeno texto de Jesús Castellano na sua obra Liturgia e Vida Espiritual: “Contemplar a Eucaristia não é fixar o olhar no pão e no cálice, mas também se deixar maravilhar pela fragilidade dos sinais e pela plenitude da realidade salvífica que contém, ouvindo, concentrados na Eucaristia, todas as palavras da revelação que dão sentido a esse mistério do pão partido e do vinho derramado no cálice, mistério pascal do corpo e sangue gloriosos do Senhor, no qual toda a história da salvação se concentra e se oferece, como toda se concentra e se oferece em Cristo crucificado e ressuscitado que nele próprio torna-se presente.

Mas, diante de tanta beleza celebrada, que fórmula vou rezar? – Na apresentação da Hóstia consagrada nenhuma. A profunda admiração deixa-nos boquiabertos e, o silêncio torna-se adoração. Após a consagração, sim, a Igreja convida a assembléia a se manifestar mediante uma aclamação do Mistério da Fé. Aqui convêm recordar o que foi escrito no Guia Litúrgico – Pastoral, editado pela CNBB: “Ao menos nos domingos e nos dias festivos, cante-se em tom de exaltação a aclamação memorial. Esta aclamação nunca pode ser substituída ou seguida por cantos e expressões devocionais (“Bendito, louvado seja”; “Deus está aqui”; “Eu te adoro, hóstia divina”; “Graças e louvores se dêem a todo momento” etc.).

Até mais!

 



Escrito por Dom Paulo Francisco Machado às 16h21
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O “Grande Livro”

 

Dom Paulo Francisco Machado

 

Um dos mais belos frutos do Vaticano II com a Constituição Sacrosanctum Concilium, sobre a Sagrada Liturgia, foi incrementar ainda mais no fiéis o amor à Palavra de Deus. A cada dia mais se venera a Sagrada Escritura como lugar de especial encontro com Jesus, pois “o desconhecimento das Escrituras é desconhecimento de Cristo”, dizia São Jerônimo.

            A Sagrada Liturgia procura nos instruir, chamando a nossa atenção para fazer da Bíblia o nosso grande livro de espiritualidade, promovendo aquele encontro pessoal com o Senhor, para Dele nos tornarmos discípulos e nos lançarmos, com maior ânimo, na missão a todos nós confiada: “Ide, pelo mundo inteiro...”

            Alguns ritos da Liturgia nos ensinam a amar a Palavra de Deus. Na procissão de entrada, o diácono porta respeitosamente e, à vista de toda a assembléia, o Evangeliário. Ele o carrega fechado e como um ostensório. Assim nos esclarece que somos chamados a venerar a Palavra de Deus, como veneramos e amamos o Corpo Eucarístico do Senhor. O Grande Livro dos atos e palavras de Cristo é depositado fechado no altar.

             Nas nossas celebrações, mesmo nas mais simples capelas, não é raro assistir, antes do início da primeira leitura, a procissão de entrada do Lecionário. Comumente, ao menos é essa a minha experiência, o livro vem aberto. Aqui, cabe-me chamar a atenção para um ponto. Ás vezes, a equipe de liturgia é tão criativa na apresentação do Lecionário ou da Sagrada Escritura, que acaba por distrair os fiéis com espetáculos de danças, músicas, e até mesmo, verdadeiros shows pirotécnicos. Penso que não é nada oportuna essa apresentação teatral “apoteótica”, pois se torna obstáculo para o cristão preparar no fundo do coração aquela terra apta para acolher a boa semente da Palavra.

De forma bem clara a Liturgia vai nos ensinando com que respeito e veneração os cristãos cercam os seus livros sagrados: entre luzes ela é conduzida até o ambão,  é incensada, tem sua página traçada com o sinal da cruz, é beijada, adornada com uma bela capa. Por isso é lastimável que a proclamação da Palavra seja feita a partir de um jornal ou de uma folha. Nas missas mais solenes, após a proclamação do evangelho, o bispo abençoa o povo com o Evangeliário (IGMR 175). O Lecionário é honrando na Liturgia como o próprio Corpo do Senhor (DV, 21; cf  IGMR,29).

            A partir desta pista, creio que já podemos oferecer uma reflexão sobre a forma de se conduzir o Lecionário – deveria ser esse e não a Bíblia - nas Celebrações Litúrgicas: o Grande Livro deveria estar fechado.

            Eis um argumento tomado do Evangelho segundo Lucas (Lc 4,17.20). Os gestos de Jesus nos mostram com que carinho e veneração era tratado o Livro Sagrado. Aí fala-se em “desenrolar o livro”, portanto o Livro do profeta Isaías estava fechado, e no mesmo estado permanecerá após a sua leitura na sinagoga de Nazaré. Penso que esse não é um gesto meramente funcional de quem deseja preservar o livro, mas demonstração de sua dignidade.

No livro do Apocalipse, que, segundo alguns exegetas, é portador dos ecos da liturgia cristã primitiva, encontramos o seguinte texto: “Eu vi também, na mão direita do que estava assentado no trono, um livro escrito por dentro e por fora, selado com sete selos ...  Então um dos Anciãos me falou: Não chores! O Leão da tribo de Judá, o descendente de Davi achou meio de abrir o livro e os sete selos” (Ap 5,1.5).

            O que mais me incomoda é ouvir o inoportuno comentarista mencionando o nome do leitor(a). A assembléia não se reúne para ouvir fulano ou sicrano, mas quer que seja proclamada a “Palavra do Senhor”. No espírito de fé, temos aquela mesma disposição interior de quem um dia disse: “A quem iremos, Senhor, só tens palavra de vida eterna”.

            O que jamais podemos esquecer e a Santa Liturgia de muitos modos vem nos recordar é que: “A Palavra se fez carne  e veio morar entre nós”.

 

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Dom Paulo Francisco Machado às 09h38
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